Vocês não são máquinas

Recentemente, estive em uma respeitosa discussão acerca do filme "Ainda estou aqui", ao presenciar um crítico brasileiro incomodado com o fato de a obra ter dado, ainda que brevemente, tempo de tela para representar o militar que passa informações para Eunice Paiva quando presa, militar este que posteriormente expressa a sua contrariedade com o que estava acontecendo com ela, nada fazendo na prática para mudar a situação. O crítico acredita que os militares não mereciam esse aceno de humanidade, e que o tempo utilizado poderia ter sido aproveitado para explorar mais a luta pelos direitos índigenas da guerreira brasileira nas décadas posteriores.

Respeitando a opinião do crítico e não tendo absolutamente nada contra a luta dos direitos indígenas, eu não poderia discordar mais. Para mim, não existe absolutamente nenhuma piedade em humanizar um grupo que cometeu atrocidades - pelo contrário, estar consciente que o sangue que escorre em suas mãos é profano e ainda assim cooperar diretamente para o funcionamento do Leviatã em sua forma mais aterradora, torturando e matando pessoas, é muito mais covarde do que agir com a crença genuína de que se está fazendo o melhor para si e para a sociedade. Parte da indiganação de Hannah Arendt, em seu conceito de banalidade do mal, parte dessa premissa, de que nazistas de carne, osso, coração, cortex pré-frontal e todo o cérebro desenvolvido puderam olhar para uma situação abjeta e perpetuá-la sob o pretexto de que "eu só estava cumprindo ordens".

Portanto, defendo que o gume da abstração jamais retire a humanidade das instituições no momento de separar o que é de fato importante, ao se diagnosticar problemas reais. Enxergar o exército brasileiro de 1964 em diante como uma instituição paralela à natureza humana é em fato retirar a responsabilidade das pessoas que lá estavam, é deixar de esperar juízo crítico, é não identificar a real fraqueza daqueles homens. Rotular um grupo de humanos como não-humano significa distanciá-lo da realidade fática, não passando de uma simplificação exdrúxula que não faz mais do que beneficiar o próprio grupo e produzir respostas simples para questões complexas.




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